O Bem-Viver(1) é um
conceito dinâmico, em permanente construção e reinterpretação. Ele tem por base
as experiências e sabedorias dos povos originários da América Latina e Caribe.
"Bem-Viver’ é uma interpretação do Sumak Kawsay quíchua(2) dentro
da realidade complexa e desafiadora do sistema do mercado global, com suas
rápidas mudanças e seus impactos destruidores das condições de vida da
humanidade no planeta Terra. É uma proposta aberta, que vem inspirando novos e
diferentes posicionamentos na busca de gerar uma cultura da vida, em atitude de
respeito e reciprocidade com todo o universo. Uma nova postura que exige
rupturas, travessias, rompimento com sistemas e esquemas mentais dominantes.
Assim como os povos originários
quechua, aimara, guarani etc. viviam em busca da sociedade do Bem-Viver
ou da Terra sem Males, grupos explorados e escravizados no Egito fizeram uma
caminhada em busca de dignidade e autonomia, em um território coletivo. Este é
o sonho que gerou o Êxodo (Ex 15,2-21). Quando a esperança de um povo é forte,
ela engravida a história. Foi o que aconteceu no final do 12º século a.C: o
Egito ficou debilitado pelas constantes investidas dos filisteus e também pelos
problemas internos (cf. Ex 12,29-13,16). Nestas circunstâncias, animados pelo
desejo de libertação e pela presença do Deus libertador que escuta o clamor dos
empobrecidos (Ex 3,7-10), o grupo preparou-se para a saída às pressas, como
transparece em Ex 12,11.
Este processo libertador começou
com a solidariedade transgressora entre mulheres egípcias e hebréias (Ex
1,15-22), com a criatividade da mãe e da irmã de Moisés (Ex 2,1-4) e com a
adoção do menino pela filha do Faraó (Ex 2,5-10). Elas salvaram Moisés da morte
e o capacitaram para liderar o povo, na travessia da escravidão para a
liberdade. Mas, outros grupos discriminados da época também contribuíram para a
caminhada do povo bíblico. Foi junto às tribos do deserto, caminhando como
pastor nas terras de Madiam, que Moisés fez uma nova experiência de Deus (Ex
3,1-10) e adquiriu um novo olhar para compreender a si mesmo e ao mundo
desigual de onde viera. Ao fazer a experiência de Javé, Moisés descobre a
sacralidade da Terra e percebe que Deus vê, escuta, conhece e se aproxima do
povo oprimido.
É em nome de Deus libertador que
esse grupo de escravos e escravas se organiza para construir juntos uma
história de luta por justiça e de Bem-Viver para todos! Sonhando juntos,
conseguem arriscar-se a fazer perigosa e incerta travessia. Ao escapar do
exército opressor, Miriam lidera uma celebração (Ex 15,19-21)! Celebrar é
preciso, mas, não basta! Sair do Egito, da terra da escravidão é uma façanha!
Mas, não é suficiente! É preciso construir um futuro inédito! É preciso caminhar
pelo deserto, confiantes na força de Javé, para construir um projeto de
autonomia e Bem-Viver para todos! Mesmo reclamando, é preciso manter a
caminhada (Ex 15,24; 16,2. 17-18; 17,2-3), aprendendo dia a dia que não é justo
acumular para si, deixando faltar para os irmãos e irmãs.
O resgate desta memória do êxodo
bíblico pode ajudar-nos a superar a tentação do "ter”, a ganância e a
ambição desmedida de acumular ou de consumir. O texto de Êxodo 16,16-18
pergunta-nos se somos capazes de partilhar bens, saberes, dons; se aceitamos
aprender algo das antigas sabedorias; se somos capazes de vivenciar a
experiência sagrada de dialogar e de comer juntos; se estamos dispostos a
recuperar a dignidade da nossa espécie. Nesse sentido, há um universo de
comunicação entre as pessoas que necessita ser explorado. Não adianta ser uma
pessoa competente, se não consegue se relacionar em profundidade com outras
pessoas. No conceito do Bem-Viver e na experiência da caminhada bíblica
há toda uma gama de gentileza, de atenção criativa e livre, de gratuidade que
precisa ser treinada desde a infância para que a arte de dialogar seja
desenvolvida e um "outro mundo” seja possível.
Não são necessários muitos
gestos para informar que algo novo já estava acontecendo. Basta observar que,
em pleno deserto, acontece um banquete sagrado. "Vieram Aarão e todos os
anciãos de Israel para comerem o pão com o sogro de Moisés, diante de Deus” (Ex
18,12b). Esse banquete é sagrado, não somente porque é celebrado por um
sacerdote madianita. É sagrado porque todo banquete é sagrado. A cotidianidade
da comida e da bebida já está inserida no plano do sagrado. A faísca de
esperança que faz arder o coração de milhões de pessoas no mundo é poder comer
em paz e liberdade o seu pão, na alegria da convivência. Êxodo 18,12 acende
ainda uma luz mais forte. As pessoas que comem o pão diante de Deus são de
etnias e religiões diferentes. Todos se alegram com a experiência da libertação
do grupo que estava sendo escravizado no Egito. Todos bendizem e louvam Javé, o
Deus dos pequenos.
A certeza da presença fiel de
Javé na caminhada leva o povo bíblico a superar crises e a fazer história. A
certeza da presença de Jesus Cristo em nossa caminhada, hoje, muda totalmente o
nosso olhar. Passamos a ver na complexa realidade atual o futuro que se
esconde, como um germe pequenino, porém garantido pela força da
ressurreição de Jesus, o Cristo, que se entregou totalmente para anunciar e
realizar o Reino de Deus. Os evangelhos nos mostram Jesus apaixonado pelo
Reino, incansável em sua entrega ao povo abandonado e desprezado pelos chefes
religiosos do seu tempo.
Nesta busca de relacionar Bíblia
e Bem-Viver, deixamo-nos surpreender, também, pela fé e a ousadia de uma
mulher excluída: a Sirofenícia. Com fé e ousadia, ela conquista para
todas as pessoas o direito à vida e à dignidade. Parece importante ressaltar
que ela era uma mulher estrangeira, pobre, pagã e sozinha. O texto (Mc 7,24-30)
deixa entender que era ela quem se sentia responsável pela filha doente e que
não tinha um homem com ela. Como uma pessoa com tantas marcas de exclusão tem
coragem de levantar a cabeça, sair do seu mundo e ir buscar libertação para sua
filha? De onde vem a força para esta mulher? O desejo de saúde, de libertação
para sua filha, lhe dá forças! Ela enfrenta a cara feia dos discípulos que não
querem deixar que ela incomode Jesus. Aliás, foi ele quem pediu para não ser
incomodado (v.24). Enfrenta também a resistência de Jesus, que lhe responde a
partir daquilo que aprendeu desde pequeno: "deixa que primeiro os filhos
se saciem, porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos”
(v.27).
Além disso, Jesus parece estar
convencido de que sua missão é junto ao povo judeu. Parece que a questão da
comida é muito importante para ele, neste momento. Está comovido pela fome e
desorientação daquela multidão de pobres que o procuram (Mc 6,34; 8,2). Mas, a
mulher pagã abre seus olhos para uma imensa multidão de mulheres pobres,
excluídas também por sua raça. Sua reclamação é coletiva. Ela mostra a Jesus
que todas as pessoas têm o direito ao dom de Deus: "É verdade, Jesus! Mas,
os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa das crianças! "Se para
o senhor eu sou uma cachorrinha, então me dê as migalhas a que tenho direito!”
E, na "casa de Jesus”, isto é, na comunidade cristã, a multiplicação do
pão para os filhos foi tão abundante que estavam sobrando doze cestos de
migalhas para os "cachorrinhos”, isto é, para os pagãos! Na resposta de
Jesus aparece uma postura nova. Ele se dá conta de que a fala daquela mulher é
palavra de Deus para ele: "por causa da tua palavra vai: o demônio saiu da
sua filha” (Mc 7,29). A atitude da mulher abriu um novo horizonte na vida de
Jesus.
Através da mulher pagã Jesus
descobriu melhor que o projeto do Pai é para todos os que buscam a vida e
procuram libertá-la das cadeias que aprisionam a sua energia. Também mostra a
importância da partilha, pois ela gera abundância que pode beneficiar aos que
nada têm. As "migalhas” debaixo da mesa sugerem uma saída alternativa para
a situação de carência e fome. Não importa a quantidade, quando se partilha
tudo, até as migalhas, gera-se a abundância necessária para saciar a fome do
mundo.
O evangelho de Marcos está
mostrando que, enquanto a partilha pode saciar a fome de milhares de pessoas no
deserto, a concentração pode gerar a fome em toda parte. Concentração de saber,
de poder, de terras, de bens fundamentais para a vida... O evangelho de Marcos
mostra, ainda, que é preciso alargar o horizonte do nosso olhar. Até Jesus fez
isso. Ele conseguiu escutar na fala de uma mulher pagã a Palavra de Deus para
ele, pedindo a mudança de visão que possibilitava uma ampliação dos
destinatários da sua missão(3).
Uma espiritualidade nova exige
uma visão ampla da vida e das relações. Daí, o desafio de resgatar o
discipulado de iguais, iniciado por Jesus. Para ser anúncio e sinal do Reino de
Deus, necessitamos ampliar as alianças, as redes e parcerias, deixando de lado
a competição e as buscas paralelas. Avançar em meio aos desafios do mundo
globalizado e excludente para gerar uma sociedade do Bem-Viver supõe a
retomada consciente e apaixonada do seguimento de Jesus.
Notas:
(1) Nos dias 25-29/07/2011, realizou-se o Curso do Rio com o tema: Sociedade do Bem-Viver: Cidadania, Fé e Vida no Planeta. Este pequeno artigo é uma síntese da minha assessoria no curso, que tinha por tema: Propostas bíblicas do Bem-Viver: A Cartilha da Caminhada (Ex 15-18) e a prática de Jesus.
(2) OBem-Viver é um sonho dos povos aimara, quéchua, guarani e também de outros povos originários do nosso Continente. Em 2008, foi incluído na Constituição do Equador e em 2009, na Constituição da Bolívia.
(3) Mercedes Lopes e Carlos Mesters, "Comunidade que partilha – Perspectiva econômica e ecológica do evangelho de Marcos”, em RIBLA nº 59, Petrópolis: Vozes, 2008, p.20-33.
(1) Nos dias 25-29/07/2011, realizou-se o Curso do Rio com o tema: Sociedade do Bem-Viver: Cidadania, Fé e Vida no Planeta. Este pequeno artigo é uma síntese da minha assessoria no curso, que tinha por tema: Propostas bíblicas do Bem-Viver: A Cartilha da Caminhada (Ex 15-18) e a prática de Jesus.
(2) OBem-Viver é um sonho dos povos aimara, quéchua, guarani e também de outros povos originários do nosso Continente. Em 2008, foi incluído na Constituição do Equador e em 2009, na Constituição da Bolívia.
(3) Mercedes Lopes e Carlos Mesters, "Comunidade que partilha – Perspectiva econômica e ecológica do evangelho de Marcos”, em RIBLA nº 59, Petrópolis: Vozes, 2008, p.20-33.
Mercedes Lopes

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