“O post é voz que vos libertará.”
(O Teatro Mágico)
(O Teatro Mágico)
Nos
últimos dias, o Brasil tem dormido um pouco diferente. Uma onda de
manifestações populares tomou conta de todo o país durante praticamente um mês
inteiro. Tudo começou em São Paulo-SP, quando o Movimento Passe Livre (MPL),
chamou atos públicos contra o aumento da tarifa do transporte coletivo.
O
MPL existe desde 2005, por ocasião da Plenária Nacional pelo Passe Livre no V
Fórum Social Mundial. A partir de então o movimento vem debatendo a questão da
mobilidade urbana e a tarifa zero no transporte coletivo em grandes centros
urbanos, bem como organizando grandes atos sempre quando é anunciado o aumento
da tarifa.
Entretanto,
dessa vez as manifestações tomaram uma proporção muito maior que o previsto. Em
poucos dias, quase todas as capitais brasileiras e muitas cidades do interior,
também organizaram protestos: o público chegou a somar cerca de um milhão de
pessoas nas ruas em todo o território nacional[i].
Além da pauta do passe livre, outras pautas foram aos poucos sendo incorporadas
aos protestos. Muita gente ficou sem entender ao certo o que de fato estava acontecendo,
os governantes nem sempre sabem como responder aos manifestantes e qualquer
análise política precipitada pode não corresponder de fato aos acontecimentos.
É
provável que a repressão policial e a cobertura tendenciosa que a grande mídia
realizava nos primeiros atos organizados pelo MPL foram o estopim para que as
manifestações crescessem de forma assustadora. Aconteceu uma deslegitimação das
manifestações quando a grande mídia qualificou os manifestantes como vândalos,
violentos e baderneiros somado a uma grande repressão policial.
Segundo
Foucault (1971) toda a produção do discurso é controlada, selecionada,
organizada e redistribuída com a função de conjurar seus poderes e
perigos. Assim, a forma como a grande mídia e a força policial tratava os
manifestantes tinha um objetivo claro, desqualificar a organização dos
manifestos e forçar a opinião pública a ver com maus olhos aquela situação. Tal
postura dos grandes meios de comunicação não é inédita quando transmite
qualquer tipo de manifestação popular.
Nas
redes sociais da internet, as notícias eram veiculadas de uma forma bem
diferente, podia-se notar claramente a postura pacífica dos manifestantes e a forma
injusta como os mesmos tinham seus direitos violados pelos policiais. Logo,
qualquer pessoa que portasse uma câmera fotográfica e pudesse registrar
situações violentas, era reprimida pela polícia a ponto de até a própria imprensa
que fazia a cobertura dos eventos também ser tratada com truculência.
A
internet acabou mostrando o que de fato acontecia nas ruas, e que era diferente
do que os grandes meios de comunicação mostravam, e isso indignou pessoas do
Brasil inteiro, fazendo com que ocorresse uma avalanche de protestos por todo o
país. Toda a convocação desses protestos era realizada por meio de redes
sociais na internet, fenômeno semelhante ao que ocorreu em vários outros países
nos últimos cinco anos.
A
internet se tornou um outro espaço social público, assim como as ruas, praças e
parques, basta ter o equipamento necessário para acessar. É mais um local onde
as pessoas podem se encontrar, conversar e emitir suas opiniões sobre qualquer
assunto. Além das relações interpessoais, as redes sociais da internet otimizam
a circulação de informações sobre qualquer tema. Vivemos em um mundo onde a
comunicação e a informação são constantes e é nesse ambiente que muitos
adolescentes e jovens constroem sua forma de pensar e agir. Portanto, a
internet se torna decisiva para definição de posições, preferências e a
construção da identidade das pessoas que estão conectadas.
Nos
anos 70, sem conhecer as redes sociais, Jacob Levi Moreno já pensava que a
força da interação entre as pessoas pudesse resultar em construções sociais. A
Sociometria criada por Moreno (1972) é um instrumento psicológico de
configuração das interações espontâneas entre os indivíduos e construção social
de grupos, no qual é possível entender a importância da organização das
alianças sociais.
Com
as redes sociais, os protestos antes de ganhar as ruas, ganham primeiro a
“multidão virtual” onde é possível, através de uma ferramenta no Facebook, por exemplo, criar um evento e ter noção da
quantidade de participantes que poderão ou não se fazer presentes. Interessante
é que quanto maior a “multidão virtual”, mais pessoas se interessam em
participar do evento presencialmente.
Castells
(2013) diz que qualquer manifestação social e política está primeiro em nossas
mentes, só se materializa na prática depois na interação com outras pessoas. A
internet possibilita esse encontro com outras pessoas, portanto as
manifestações também acontecem antes nesse novo espaço social, que é a
internet, para depois chegar às ruas em forma de protestos.
Tal
fato comprova que a onda de manifestações no Brasil não tem essência puramente digital,
pois passa a existir presencialmente quando toma as ruas. Outras
características interessantes são as formas como os atos vem sendo organizados.
Diferente de tudo o que estamos acostumados, não existem líderes,
coordenadores, presidentes, diretores, ou qualquer outra forma verticalizada de
organização. Por mais que posteriormente seja possível identificar lideranças
informais, as pessoas que constroem as manifestações prezam por uma organização
horizontal. Tal característica deve ser analisada com cuidado.
Grande
parcela dos manifestantes que no passado ajudaram a mudar a história do país, era
jovem. Na atual onda de manifestos que acontecem no Brasil não é diferente. Não
que outras pessoas não estejam nas ruas, mas é visível nas atuais manifestações
a grande massa de jovens. Uma característica interessante é que a grande
maioria nunca havia participado de uma manifestação pública, muito menos de
qualquer outro tipo de organização como movimentos sociais, sindicatos, partidos
políticos, entidades estudantis, e outros.
A
baixa experimentação política abre margens para um comportamento de senso
comum. São jovens que estão indignados com alguma coisa. Não só com o preço do
transporte coletivo, mas que carregam consigo uma gama das mais variadas insatisfações.
Não é à toa que, além do passe livre, muitas outras pautas foram acrescentadas
aos protestos, como: Liberdade de expressão e manifestação; Altos gastos de dinheiro
público nas Copas das Confederações e Copa do Mundo; Não a violência policial; Contra
a corrupção; Educação e saúde pública de qualidade; PEC 37 e principalmente uma
aversão geral a todos os políticos e seus partidos, não importa quem eles sejam
ou que cargo ocupam. A luta é por mais qualidade nos serviços públicos e
reformas estruturais no estado. Apesar de falarem muito em “Revolução”, a pauta
nas ruas não é revolucionária, mas reformista. Parece que a indignação tomava
conta da juventude que resolveu gritar isso pros quatro cantos do mundo. Uma
indignação não somente com temas específicos, mas com todo o sistema no qual
estamos inseridos, insatisfação com esse sistema que oprime, exclui e mata as
pessoas.
Para
Bock (2006), a atual geração de jovens vive em um padrão de sociedade de
dominação, inclusive a dominação do adulto sobre o jovem. Instituições gerais
de formação de adolescentes e jovens, na verdade são vistos por eles como
instrumentos de controle, para que o jovem de hoje, seja o adulto bem
comportado e obediente de amanhã. Talvez isso explique a grande aversão a todos
os tipos de instituições e organizações políticas demonstradas nos manifestos.
Também pode explicar o motivo de preferirem a organização de forma horizontal,
diferente das nossas instituições políticas que se organizam verticalmente. A
juventude não se sente representada por muitas de nossas organizações atuais,
instituições políticas, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, partidos
políticos, e outros. São símbolos de burocracia, se mostram arcaicas e servem
para controlar e não para ouvir as necessidades dos adolescentes e jovens.
Diante dessa demanda as redes sociais, como o Facebook, tornaram-se instrumento para que os adolescentes e jovens
se fizessem ouvidos.
É
uma geração que, vivendo em um ambiente de comunicação e informação da
internet, aprendeu a manifestar a sua opinião sobre qualquer coisa e também que
pode ser ouvida fora das redes sociais. É como se o Feed de Notícias do Facebook tivesse saído às ruas. É a expressão
de uma insatisfação difusa que vem especialmente da juventude urbana, focando
principalmente no sistema político e nas políticas públicas.
Contudo
é difícil identificar nas ruas uma predominância de jovens de classe média ou
classe trabalhadora. O que torna a identificação das pautas ainda mais difícil.
Protestar contra tudo e contra todos pode parecer que é o mesmo que protestar
contra nada. Qualquer levante popular com uma pauta muito pulverizada dá margem
a sentimento de instabilidade política, que pode resultar em muita coisa,
inclusive em nada. Essa pulverização de pautas abre espaço para oportunistas
que queiram se aproveitar das manifestações e fazer aparecer as pautas que lhe
convêm.
Dessa
forma é possível interpretar que essa juventude, a que está saindo às ruas pela
primeira vez, é como diria Karl Mannheim (in BRITTO, 1968: 74) não é nem progressista,
nem conservadora: é uma enorme potencialidade em disputa. São corações e mentes
indignados com a sociedade e abertos a ideologias que os acolham. Assim está
feita uma das maiores disputas ideológicas da atualidade. A direita investe
massivamente em quadros, equipamentos, profissionais, tempo e muito dinheiro, para
impor que uma pauta conservadora seja posta nas ruas a fim de consumir seus interesses particulares.
A esquerda se sente acuada, pois, desde sempre foi ela que esteve as nas
ruas liderando grandes protestos. Agora, se estiver junto a essa juventude portando
bandeiras partidárias, simplesmente não é bem-vinda, e o pior, é muitas vezes
vítima de violência dos manifestantes que antes pregavam a paz.
Os
grandes meios de comunicação, com o tempo, também passaram a operar apoio às manifestações,
mas com finalidade de diluir as bandeiras legítimas dos movimentos sociais e
partidos de esquerda ao mesmo tempo em que tentam inserir as suas pautas
reacionárias capitalizando jovens sem experiência política. Nota-se que quando
o bordão “não é por centavos” se espalha na grande mídia, é aberto espaço para
inserção de qualquer outra pauta, inclusive temas como “por diminuição de
impostos”, “fim dos programas sociais do governo”, “contra a ditadura gay”,
“não a corrupção”, “fora presidenta”, que vão de encontro aos interesses da
direita conservadora. Em diversos lugares já foram identificadas pessoas
inseridas como espiãs nas manifestações a fim de incitar a violência,
despolitizar e desvirtuar os objetivos das manifestações.[ii]
Outra movimentação interessante foi introdução de slogans como “O gigante acordou”, fazendo alusão a um levante da
população que estaria adormecida e desmerecendo toda uma história de luta dos
mais diversos movimentos sociais que atuam há anos no Brasil e sempre estiveram
saindo às ruas em busca de direitos. Também é possível notar um forte
nacionalismo nas manifestações, onde muitas pessoas carregam bandeiras do
Brasil e repetidamente insistem em cantar o hino nacional nas ruas. Essas
demonstrações não são ao todo incoerentes, mas abrem espaço para apagar as
cores, músicas e palavras de ordens típicas dos movimentos sociais.
Tais
operações da direita conservadora também fez com que todos os segmentos de
esquerda se unissem para disputar as ruas e opiniões dos adolescentes e jovens
manifestantes. Em muitos lugares, a esquerda constituiu um grande bloco que
forçou as pautas nas ruas a se fortalecerem nos interesses de toda a população
e não somente da mídia conservadora. Militantes de movimentos sociais que
sempre estiveram nas lutas e nas ruas há muito tempo, se veem forçados a somar
a esses grandes atos, além de também botar o bloco na rua com força total em
outras oportunidades, aproveitando o estado de mobilização da juventude e
garantindo a luta e garantia de novos direitos. Os três poderes também se veem
na obrigação de dar respostas rápidas ao clamor das ruas resultando, por
exemplo, nos cinco grandes pactos propostos pela Presidenta Dilma Rousseff:
Pela mobilidade urbana; Responsabilidade fiscal; Saúde; Educação; e Reforma
política.
Apesar
de todos os resultados políticos relativamente positivos que as manifestações
trouxeram, nas quais os adolescentes e jovens que foram às ruas deram o recado
de que não estão satisfeitos com nossas instituições políticas, vale a pena fazermos uma reflexão: os
movimentos sociais, partidos políticos, igrejas, sindicatos e demais entidades,
simplesmente deixaram de lado o cuidado com as suas juventudes. Já imaginaram
como essas manifestações poderiam ser muito mais eficazes com jovens
extremamente politizados nas ruas? É crucial para qualquer entidade a
revitalização nas formas de organização e a escuta dos adolescentes e jovens.
Não dá mais para nossas organizações se manterem afastadas de suas bases, bem
como desconsiderar o potencial criativo e luta da juventude.
Walkes Vargas
Psicólogo e Diretor do
Sindicato dos Psicólogos do Mato Grosso do Sul, Militante da Juventude da
Articulação de Esquerda, Coordenador da Pastoral da Juventude.
Referências
BOCK, A. M. B. Psicologias: uma introdução ao estudo da
psicologia. Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado, Maria de Lourdes Trassi
Teixeira. – 13. Ed. Reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2006.
CASTELLS, M. Redes de indignação e esperança: Movimentos
sociais na era da internet. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de
Janeiro, 2013.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga
de Almeida. São Paulo: Edições Loyola, 1971.
MANNHEIM, K. O problema da juventude na sociedade
moderna. In: BRITTO, S. de. Sociologia da juventude: v. 1 – da Europa de
Marx à América Latina de hoje. Rio de Janeiro: Zahar, p. 69-94, 1968.
MORENO, J. L. Fundamentos de la sociometría. Tradução: J.
García Bouza e Saul Karsz. Buenos Aires: Paidós, 1972.
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