Proposta comum entre os candidatos a cargos
eletivos em período de campanha na capital, vemos a “criação de mais
hospitais”, ou ainda “mais leitos” ou então “mais equipamentos hospitalares”...
Mas será mesmo que a “hospitalização” da população campo-grandense seria
realmente a saída para os problemas na saúde pública que enfrentamos não apenas
aqui, mas nacionalmente?
Criado pela
Constituição Federal de 1988 e regulamentado pelas Leis n.º
8080/90 e nº 8.142/90, Leis
Orgânicas da Saúde, o Sistema Único de Saúde tem a finalidade de garantir o
acesso amplo e irrestrito à saúde pública de qualidade a todo e qualquer
cidadão brasileiro.
Uma das
características mais interessantes do sistema de saúde brasileiro é a
descentralização, ou seja, a cada esfera de poder público: federal, estadual e
municipal, cabe uma função específica.
Ao município
cabe a gestão dos recursos destinados a este fim e a promoção de políticas
públicas que garantam o funcionamento do sistema, com foco no público final, ou
seja, na população.
Acontece,
porém, que atualmente percebemos uma enorme demanda hospitalar de doenças que
seriam facilmente prevenidas quando identificados fatores de risco precocemente
ou ainda tratadas e curadas se descobertas em estágio inicial. Podemos destacar
neste grupo: a hipertensão arterial e inúmeras doenças cardíacas, diabetes,
hiperlipidemia (colesterol alto), obesidade e outros distúrbios alimentares,
alguns tipos de câncer (como de mama, colo de útero, próstata e pele),
transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e síndrome do pânico,
doenças na coluna (hérnias de disco, osteofitose ou bicos de papagaio),
osteoporose, artrose. O diagnóstico e tratamento primário destas e muitas
outras doenças ou disfunções deveria estar a cargo da Atenção Básica – Unidades
Básicas de Saúde (UBSs) e Núcleo de Assistência à Saúde da Família (NASFs). E a
quem culpamos por este sistema não ser totalmente implementado na atualidade
nos municípios brasileiros?
Vivemos hoje
em um sistema de estado HERDADO, ou seja, antigas e falhas políticas em
diversas áreas são “melhoradas” e repetidas gestão após gestão, sem que ocorra
efetivamente uma cisão do antigo para o novo, do antiquado para o moderno. Este
tipo de gestão é facilmente explicado pela própria dificuldade do ser humano em
lidar com o novo, mas está na hora de experimentarmos uma nova maneira
de se encarar a saúde pública.
Em média no mundo uma pessoa vai ao médico
3,7 vezes por ano. No Brasil, devido principalmente ao modelo atual de gestão
em saúde, essa média se aproxima a 9 consultas por ano. É quase 1 bilhão de
consultas médicas anuais (dados de 2010), mais de 500 milhões de exames e
toneladas de medicamentos (que chegam a custar aos cofres públicos cerca de dez
vezes mais que o próprio valor da consulta). Em posse desses números, pergunto:
será mesmo que precisamos de mais verbas para a saúde? E a resposta é NÃO!
Precisamos racionalizar o dinheiro gasto e redistribuir esse aporte focando
primariamente na Atenção Básica.
Como nossas avós diziam: prevenir é melhor
que remediar. E a sabedoria popular, neste caso, é indefectível. O que é mais
barato e eficaz para o gestor público: reeducar os hábitos alimentares de uma
pessoa que sofre de obesidade com um Nutricionista e incluí-la em um programa
de atividade física orientada por Educador Físico ou assumir os custos e os
riscos de uma cirurgia bariátrica (redução de estômago) com todas as suas
conseqüências? Ou ainda, imaginemos que este mesmo paciente, quando criança,
fosse incluído em programas específicos para pessoas que apresentam fatores de
risco, em sua própria comunidade, através do Programa de Saúde da Família. Ela
estaria quando adulta dentre os milhares de brasileiros que são vítimas de distúrbios
alimentares?
Outro bom exemplo é o paciente com dores na
coluna. Segundo dados da própria previdência social, os problemas relacionados
à coluna são as maiores causas de afastamento do trabalho. Se olharmos esse
dado sob a ótica do custo aos cofres públicos, já se torna assustador. Mas se
mudarmos esse olhar e focarmos na qualidade de vida (ou falta dela) dessas
pessoas que deixam de trabalhar devido às fortes dores, o fato é alarmante. E o
que falar das inúmeras outras conseqüências da dor crônica, como depressão,
problemas nos relacionamentos interpessoais, outras doenças causadas pelo uso
excessivo de analgésicos e antiinflamatórios (como a gastrite), e incapacidades
que se tornam permanentes?
Mais uma vez, nos casos dessas pessoas,
pergunto: não seria mais barato ao poder público que elas não chegassem a esse
ponto, se desde a juventude tivessem a prática de atividade física regular de
forma sistemática incluída em sua vida já na Atenção Básica, uma vez que a
equipe de saúde da família da sua região tivesse identificado fatores de risco
que a levariam à doença e incapacidade na idade adulta?
Poderia me prolongar por muito tempo citando
diversas doenças em que, quando apenas remediamos, estamos não só gastando
dinheiro público de forma leviana e inconseqüente, mas também privando a
população ao direito básico de saúde e qualidade de vida. Porém, prefiro
sugerir ações práticas que viabilizem de forma rápida e pouco onerosa ao gestor
público, a mudança nos padrões atuais de atenção à saúde.
É urgente que tenhamos nas unidades básicas
de saúde e nos Núcleos de Saúde da Família equipes multi/interdisciplinares
compostas no mínimo por enfermeiros, psicólogos, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas,
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e educadores físicos. Muitos destes
profissionais inclusive já são hoje funcionários públicos federais, estaduais
ou municipais realizando funções burocráticas.
Também é imprescindível que estes
profissionais atuem no primeiro contato com o paciente, ou seja, que nos casos
de suspeita de transtornos psicológicos o psicólogo seja a primeira referência
de atendimento e caso necessário, o paciente seja encaminhado ao atendimento
médico especializado. Da mesma forma pacientes portadores de obesidade,
hiperlipidemia (colesterol alto), hiperglicemia (aumento nas taxas de açúcar no
sangue) submetidos à consulta com Nutricionista já na sua primeira visita à
Unidade de Saúde. Pacientes com dores na coluna e demais articulações já saindo
da unidade básica com um diagnóstico funcional elaborado após consulta com
fisioterapeuta; crianças com gripes simples ou resfriados direto aos médicos
homeopatas. Casos de alergia tratados também por acupunturistas e assim por
diante.
Proponho, enfim, que os atuais e também
futuros gestores públicos desviem o foco da hospitalização da população, ação
esta comprovadamente cara e de baixa eficiência epidemiológica, para a atenção
primária. Migremos a para visão de um ESTADO NECESSÁRIO! Assim, certamente
ainda existirão casos em que os cuidados hospitalares serão prescritos, assim
como tratamentos medicamentosos e cirúrgicos. Mas estes serão exceção à regra,
cujo foco será promoção da saúde, prevenção de doenças e disfunções e, acima de
tudo, qualidade de vida população.
João Leite Júnior
Fisioterapeuta, especialista em Gerontologia, estudioso da saúde pública há mais de 12 anos.
João Leite Júnior
Fisioterapeuta, especialista em Gerontologia, estudioso da saúde pública há mais de 12 anos.

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