“Mira o céu azul
espaço aberto pra te acolher (...)
espaço aberto pra te acolher (...)
Mira o nosso chão
banhado em sangue pra reviver.
Mira a nossa América
banhada em morte pra renascer.”
banhado em sangue pra reviver.
Mira a nossa América
banhada em morte pra renascer.”
(Zé Martins)
A Pastoral da Juventude é a
ação organizada de grupos de jovens que se reúnem nas comunidades eclesiais,
articulados em todo o Brasil por meio de instâncias de coordenação. É uma rede
de pessoas que caminham em sintonia e em comunhão com uma Igreja libertadora. A
cada três anos representantes de todos os lugares do Brasil se reúnem em uma
Ampliada Nacional para celebrar, avaliar e planejar a caminhada dos próximos
anos. Estamos nas vésperas da Ampliada Nacional que acontecerá em Belo
Horizonte-MG, a qual também celebra 40 anos de história da Pastoral da
Juventude.
Passado um período de muita
agitação na Evangelização da Juventude com a Jornada Mundial da Juventude -
ocorrida em julho no Rio de Janeiro - dentro outros elementos, é importante
fazer uma avaliação profunda em nossa organização e missão para conseguir
realizar um planejamento que atinja as bases. Fazer uma análise de conjuntura é
olhar o chão que estamos pisando, os elementos que estão em nossa volta,
identificar as forças políticas que estão ou não em disputa, e traçar um caminho
a ser percorrido. Devemos sempre ter o cuidado de não deixar que elementos
desanimadores, identificados em uma análise de conjuntura, nos façam perder as
esperanças de um futuro melhor. Já dizia dom Pedro Casaldáliga: “apesar de todo
cansaço, de toda decepção e amargura, não temos o direito de perder a
esperança; a desesperança é heresia!”.
Não deve ser surpresa pra
ninguém que a Igreja é uma instituição em disputa política, afinal, em todo
espaço existem pessoas que disputam pensamentos e ideias diferentes. Isso
acontece em qualquer agrupamento de pessoas e não é diferente nas instituições
religiosas. Em nossa Igreja, nos últimos anos, João Paulo II e depois Bento XVI
foram grandes defensores do conservadorismo e tradicionalismo romano, que
também influenciou as instâncias de decisão da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil - CNBB. Consequentemente, setores progressistas da Igreja - como as
Pastorais da Juventude, Pastorais Sociais, Comissão Pastoral da Terra, Conselho
Indigenista Missionário, Comunidades Eclesiais de Base, etc - perderiam espaço
e investimento no meio eclesial. Para quem atua como liderança em algum grupo
eclesial sabe muito bem que existe essa disputa de correntes de pensamento na
Igreja.
Desde os/as militantes da
Pastoral da Juventude até iniciantes nos grupos de base sentem na pele a falta
de apoio da instituição. Coordenações Diocesanas da PJ são extintas por bispos
em detrimento da criação de um Setor Juventude, que deveria ser espaço de
comunhão de diferentes expressões de jovens proposto pelo documento nº 85 da
CNBB. De repente, coloca-se tudo de bom que temos na Pastoral da Juventude como
algo que não é mais nosso. Todo o nosso acúmulo de 40 anos de história, nossa
metodologia, nossos estudos, são colocados à disposição para apropriação de
outros, como se não fosse nosso. Ignoram a história de celebração do DNJ – Dia
Nacional da Juventude - promovida pelas Pastorais da Juventude em todo o Brasil
desde 1985 e hoje em propriedade do Setor Juventude; páginas na internet são
criadas para perseguir o nosso jeito de ser, a nossa mística, e ridicularizar
tudo o que acreditamos. Utilizar o termo Pastoral Juvenil no Brasil, termo comum
nos países latino-americanos, como algo inovador, nada mais é do que estratégia
para confundir e rivalizar as bases. Muitas vezes somos até proibidos de
carregar nossos símbolos e bandeiras dentro dos espaços eclesiais.
Esses são só alguns
elementos de dificuldades externas que conflitam e entravam a caminhada da PJ.
Também existem limitações internas que não podem ser ignoradas. Por exemplo, a
falta de assessores/as capacitados/as, a escassez de formação, de materiais de
fácil utilização, a manipulação que acontece em muitos lugares, os
enfrentamentos com a hierarquia da Igreja. Todas essas e outras limitações que
temos não devem ser ignoradas, porém, não devemos nos considerar culpados de
todos os nossos problemas, uma vez que também existem elementos externos na
Igreja e na sociedade os quais dificultam o nosso trabalho. Se muitos dizem que
a PJ vive um momento de crise, devemos avaliar que essa crise não está somente
em nossa pastoral, mas em toda a Igreja e sociedade porque fazemos parte dela e
é nela que estamos, vivemos e nos organizamos.
Eis um grande desafio:
olhar para toda essa realidade de dor e conseguir enxergar um ‘belo horizonte’
para a Pastoral da Juventude. Aqui entra a mística que permeia todo o nosso
trabalho pastoral e não nos faz desistir. É graças as amizades que fazemos nos
grupos de jovens e instâncias de coordenação que ousamos sonhar juntos/as um
mundo melhor. Ao acompanhamento de assessores/as que são realmente nossos/as
amigos/as e companheiros/as que revitalizamos as nossas forças para continuar.
Ao povo que sofre e nos mostra que não devemos sair da luta. Inspirados/as em
Jesus libertador que ousamos dizer: “A PJ não vai acabar”.
Pessoalmente, também teimo
em sonhar esse belo horizonte. Um belo horizonte onde possamos vencer a
violência e o extermínio de jovens, o preconceito, racismo, machismo,
discriminação, a homofobia, entre outros. Um belo horizonte onde não sejamos
perseguidos e ridicularizados pelo nosso jeito de ser, rezar, lutar e se
organizar. Um belo horizonte onde o Setor Juventude seja realmente um espaço de
comunhão entre diferentes seguimentos de jovens e não um grupo organizador de
eventos, ou ainda um substituto da PJ. Um horizonte onde os grupos de jovens
tenham apoio do clero, dos/as religiosos/as, da comunidade local; e acesso
direto aos nossos materiais de apoio. Sonhar não custa nada, né? Então, não
custa sonhar um belo horizonte onde a instituição possa colaborar com as nossas
necessidades financeiras, onde um jovens de uma comunidade pobre e distante
ganhe um simples apoio para conseguir participar de um encontro de formação. E
por que não mirar um belo horizonte onde os/as jovens de mais caminhada na PJ
sejam engajados e militantes nos mais diversos movimentos sociais e partidos
políticos, mudando assim a realidade local e melhorando a vida do povo.
Quando a gente mira
horizontes tão belos como esse logo nos empolgamos a fazer as coisas para
chegar lá. Também ouso pensar um pouco do que temos que planejar e nos
organizar. Talvez a grande maioria dos/as jovens e assessores que estão hoje
comprometidos com a PJ, não estarão mais no futuro, estarão em outros espaços eclesiais
e sociais, mas isso não nos impede de dizer que sim, nós chegaremos lá.
Chegaremos um dia a ver as
nossas instancias trabalhando de uma forma ainda mais democrática, mais
horizontal e menos hierárquica. Por que não envolver mais as nossas bases nas
decisões das instancias regional e nacional? Por que sempre temos que
sacrificar a vida de um/a jovem por três anos na secretaria nacional da PJ,
fazendo deixar de lado estudos, trabalho e família para se dedicar
exclusivamente ao trabalho pastoral? Por que não dividir todas as demandas de
trabalho dessa secretaria com mais pessoas, tornar um secretariado nacional,
onde cada um/a tem o seu papel e ninguém tenha que deixar os estudos, trabalho
e família para se dedicar exclusivamente em cumprir as demandas do trabalho
pastoral.
Temos sim, a opção
pedagógica pelos pequenos grupos, mas nossos documentos também falam dos
eventos de massa, desde que, trabalhado de forma objetiva e processual. Por que
não ampliar a participação dos/as jovens nas coordenações, nos seminário,
cursos e encontros? Por que não sonhar as instancias de decisão mais amplas e
horizontais, fazer uma Ampliada Nacional que seja realmente ‘mais ampliada’ do
que é, pensar os Encontros Nacionais da PJ livres e abertos, sem disputas de
vagas? Fazer essas mudanças não é ceder espaço para a moda dos movimentos
eclesiais que priorizam os eventos de massa, mas sim valorizar a atuação dos
grupos de base, pois quando limitamos a participação em vagas, se o processo
não for bem trabalhado na base, pessoas podem sair feridas e magoadas. Muita
gente boa de todo o Brasil deixa de participar de momentos importantes da PJ simplesmente
porque tem que brigar com unhas e dentes por uma vaga. Estruturalmente e
metodologicamente não é impossível, basta olharmos os exemplos dos
Intereclesiais das Ceb’s e os Encontros Nacionais de Fé e Política ente outros.
Por que não sonhar projetos
de formação de lideranças, formação política, comunicação popular, afetividade
e sexualidade, arte e cultura, mística e liturgia para os nossos jovens
pejoteiros/as acontecendo em todo o Brasil. A inserção mais efetiva dos/as
pejoteiros/as nos movimentos sociais e partidos políticos. A sistematização das
nossas bandeiras de lutas para subsidiar os/as pejoteiros/as que nos representam
nos conselhos municipais, estaduais e nacional de juventude. O DNJ como evento
de massa e também de volta com a identidade a organização das Pastorais da
Juventude. Os Centros e Institutos de Juventude funcionando e apoiando as
nossas atividades. A comunhão, respeito, trabalho em conjunto com todas as
Pastorais da Juventude, Movimentos Eclesiais, Congregações Religiosas e Novas
Comunidades. Enfim, só escrevi esse texto pra somar aos milhares de sonhos de
um belo horizonte para a PJ que estão espalhados nos corações de pejoteiros/as
pelo Brasil. Em todo trabalho pastoral não há uma conclusão final, porque o que
fazemos é, e será, sempre uma ‘eterna construção’. Estaremos sempre com muitas
ideias construindo um belo horizonte, um mundo melhor, a civilização do amor.
“Levante essa voz companheiro
E abra o olho ligeiro
Não fuja da luta jamais!
Em cada caminho ou na rua
E abra o olho ligeiro
Não fuja da luta jamais!
Em cada caminho ou na rua
Assume essa causa que é tua
Semeie as sementes da paz!
Vamos lá! Vamos lá
Semeie as sementes da paz!
Vamos lá! Vamos lá
A história ninguém deterá
É rio que corre pro mar
Ninguém vai nos calar, nos calar!”
É rio que corre pro mar
Ninguém vai nos calar, nos calar!”
(Zé Vicente)
Walkes
Vargas
Um
eterno pejoteiro

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