“A violência se liberou de
qualquer fundamento ideológico” Hans
M. Enzensberger
Ao mesmo tempo em que a grande mídia
e seus pseudo- especialistas tentam pautar uma discussão sobre o encarceramento
de jovens e adolescentes em cadeias comuns e a redução da idade mínima para
serem julgados como criminosos adultos, o país passa por um período de
sangrenta guerra que vem, ilegitimamente, exterminando sua juventude.
A violência urbana, enquanto
representação simbólica da realidade em que estamos imersos, hoje se encontra num
constante processo de assimilação como prática comum nas relações sociais. Ao
mesmo tempo, a mídia apresenta a violência como espetáculo e como verdadeira
paranoia, como se todos os ambientes, se todas as cidades, se todos os espaços,
principalmente públicos, fossem espaços violentos. Percebe-se aí a tentativa de uma construção
hegemônica de estabelecer a ordem social como forma de vida constituída pelo
uso da força como princípio organizador das relações sociais. Todo e qualquer questionamento
à “ordem social” hegemonicamente estabelecido deve ser combatido com uso da
força. Neste jogo de “cabo de guerra”, a face mais visível e, ao mesmo tempo,
mais vulnerável é a juventude brasileira.
Nesta conjuntura, onde estão inseridos os aparelhos estatais de controle
social? Onde se insere o debate pela implementação e efetivação de políticas
públicas? Há que se considerar uma verdadeira reorganização das agencias da
ordem estatal, a relação destas com a sociedade civil e a formulação e
implementação de políticas mais democráticas de segurança pública.
Se alastram pelo país iniciativas de
leis municipais que privam os jovens e adolescentes do uso do espaço público.
Chamada de “toque de recolher”, a lei limita os adolescentes e jovens de
ocuparem os espaços públicos. Mais de 90% dos casos de violência contra jovens
e adolescentes são cometidos em casa, muitas vezes protagonizados pelos
próprios pais ou parentes próprios. Ou seja, no ambiente privado, própria casa,
é que a maioria dos crimes acontecem. Porque, então,o espaço público deve ter restrição
de uso? A lei do toque de recolher torna-se, então, um atestado de incompetência
do estado, através de seus gestores, que afirmam não ser capazes de tornar
seguros os espaços públicos. É a privatização destes espaços.
Já o índice de homicídios na
adolescência e juventude vem aumentando a cada ano. Ousamos dizer que é um
verdadeiro extermínio da juventude brasileira. No Brasil, a possibilidade de um
jovem ser vítima de um homicídio é em
média 30 vezes maior que na Europa e 70 vezes maior que na Grécia, Hungria e
Inglaterra. Os homicídios, no Brasil,
têm idade, raça, classe social e gênero: são jovens, negros, pobres e
homens. No período de 1996 a 2006, a
taxa de homicídio entre a população em geral cresceu 20%. Na população jovem
este índice foi de 31%. Se considerarmos os jovens negros, este índice é ainda
maior.
Segundo o relatório do IHA (índice de
homicídios na adolescência), pesquisa realizada pela UNICEF, 45% das mortes de
adolescentes e jovens na faixa etária de 12 a 18 anos são por homicídio, ou
seja, quase metade da juventude que está morrendo é vítima da violência direta,
morte por arma de fogo. Comparado a 83
países o país ocupa o 5º lugar na taxa de homicídios juvenis.
Neste contexto em que a juventude vem
sendo, verdadeiramente, exterminada, um outro movimento toma força. O debate da
redução da maioridade penal. Um dos argumentos é a impunidade do ECA (Estatuto
da Criança e Adolescente) que prevê, no máximo, três anos de recolhimento em
centros de sócio-educação e outras medidas de acompanhamento.
A maioria dos condenados por
homicídio qualificado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) recebe como pena
cerca de 12 anos de condenação. Pela legislação atual, se o condenado tiver bom
comportamento poderá cumprir a pena em regime aberto após o 2º ano de prisão. Ou
seja, o adulto condenado por homicídio qualificado cumpre uma pena menor que o
adolescente. Outro dado importante diz respeito ao índice de crimes cometidos
por jovens e adolescentes no país: 1,7%. O estado onde este índice é mais
alarmante é o de São Paulo, aonde o índice não chega a 4%.
Há que se estabelecer um debate
aprofundado acerca do tema, com a análise destes e de outros dados como, por
exemplo, o volume de recursos que o estado vem investindo no que diz respeito a
políticas públicas para a juventude. Se
há falta de investimento em políticas públicas para que estes jovens e
adolescentes não venham cometer crimes, quem é o verdadeiro vilão da história?
Vamos combater as causas da violência ou continuar punindo os verdadeiros
inocentes no processo?
Luiz Fernando Rodrigues
é funcionário da educação pública do Paraná e secretário de juventude da
CUT-PR.
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