Nesta minha caminhada de assessor,
tenho visto muitas coisas, experimentado muitas outras, e recentemente
encontrei um grupo de jovens, numa determinada comunidade, de uma determinada
paróquia, de uma determinada diocese, onde os/as jovens usavam camisas com o
símbolo da PJ, mas suas orações, cânticos, dinâmicas e espiritualidade eram
100% da RCC. Aquilo me assustou profundamente. Me senti num grupo de oração ou
num daqueles seminários de vida no Espírito.
O
termo: renovada, é por conta de
jovens oriundos da RCC (ministério jovem) que levam para os grupos de jovens,
suas experiências, abolindo aos poucos as práticas pé no chão e libertadoras,
que nós pejoteiros e pejoteiras (de verdade) possuímos: a reza do ofício divino
das comunidades (da juventude, dos mártires, das romarias), o altar com velas e
cangas coloridas colocadas no chão, a
vasilha de barro com água e pétalas de flores, incenso, a foto de nossos/as
mártires, recortes de jornais com a realidade nua e crua, a devoção mariana sem
exageros, a wiphala, a bandeira da paz e da PJ forrando o chão, sugerindo o
caminho traçado pelo Moreno de Nazaré em nosso meio, o presentear as lideranças
quando estas fazem o processo de educação da fé com o anel de tucum (que alguns
da Canção Nova, dizem que é o anel do servo), as músicas do cancioneiro
popular, do Zé Vicente, do Zé Martins, do Reginaldo Veloso, da Socorro Lira, do
MST, do Lula Barbosa, do Padre Zezinho, a leitura de livros de autores/as da
caminhada latino americana como D. Hélder Câmara, Frei Betto, Marcelo Barros,
Leonardo Boff, Adélia Prado, Frei Carlos Mesters, Ivone Gebara, D. Pedro
Casaldáliga, João Batista Libânio, José Maria Vigil, Gustavo Gutiérrez,
Leonardo Boff, dos/as mártires Chico
Mendes, Padre Josimo, Irmã Doroty, Irmã Cleusa, Padre Gabriel Maire, Padre
Gisley, D. Oscar Romero, os/as jovens que tombaram lutando pela defesa da vida
– nomes tantos – tantas saudades, etc.
Em
muitos lugares, por este país a fora, já é uma realidade isso: eles vão
chegando e colocando as ideias do movimento dentro da reunião de grupo, os
participantes vão deixando, ou não se importando; ainda mais quando o grupo é
novo, e as lideranças não estão formadas. Distorcem tudo o que foi vivido,
experimentado e passado sobre a PJ nos últimos 40 anos. Muita gente já tem
notado a diferença, mas nada fala, ou não querem ver, ou se omitem. Eu venho
falando isso a algum tempo, mas disseram que falo demais, que sou intolerante.
E nossa identidade indo para o fundo do poço.
O
que tenho visto e ouvido de muitas lideranças que estão na base, nos diversos
regionais, é que a coisa se espalhou como uma doença contagiosa, e nada, tem
sido feito. Dizem, as lideranças, que quem está na estrutura, no alto da
pirâmide, não está dando a mínima atenção a isso. Aí está o erro!
Frase
de uma liderança de comunidade eclesial de base: “O interessante é que dá a
entender que criaram o grupo sem ter estudo, conhecimento ou pelos procurar
saber o que é a PJ. Pois se for assim, só estão criando MAIS UM grupo de RCC,
só que usando o nome da PJ!”
Outra
frase de liderança, um pouco mais pessimista: “É isso aí mesmo...mais um grupo
de oração da RCC, só que usando o nome da PJ...foi a forma que descobriram para
acabar de vez com a PJ!”
E
a nova resposta, mais entusiasmada: “Não sei se a intenção é acabar com a PJ,
até onde vejo é somente para se promover usando a fama do grupo. Mas, como ser
PJ, além de oração, exige ação, trabalho e muito estudo, quando estes começarem
a ser cobrados como PJ ou vão repensar sua caminhada ou vão desistir da idéia!”
Não
se pode negar que a estratégia que estão usando, de certa forma, tem dado
resultados favoráveis a eles. E me pergunto; iremos ficar parados, calados,
assistindo a tudo isso sem nada fazer?
Vamos
deixar as lideranças lá nas comunidades eclesiais de base, se lascarem
sozinhas, pois estamos preocupados com jornada não sei o que, encontro nacional
de não sei onde, ampliada tal?
Olha
esse desabafo de uma liderança: “O povo da CN (Coordenação Nacional) não sabe
por que não convive com as bases; só o Edilson que puxou essa reflexão, mas
ninguém pelo que me parece ligou para o que estamos vivendo aqui nas bases!”
E
aí galera, o que faremos?
Qual
será a estratégia que iremos usar para combater esse extermínio de
personalidade e identidade que estão inserindo nos grupos de PJ?
Iremos
nos posicionar firmemente ou ficaremos omissos?
Emerson
Sbardelotti
Turismólogo,
Historiador, Teólogo
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