“O que é velho diz: ‘fui, sou, serei
assim’.
O que é novo diz: ‘caia fora o que é
ruim’”.
(Bertold Brecht)
Como compreender a greve dos estudantes
da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) em Campo Grande? Não é
fácil entender um movimento social no calor dos acontecimentos e do qual sou
apoiador e, na medida do possível, participante. Não existe ainda o necessário
distanciamento histórico e isenção de ânimos para uma análise racional e
criteriosa que permita avançar na compreensão do movimento grevista. Porém (e
sempre há um “porém”), entendo ser fundamental uma análise de conjuntura que
possibilite iluminar a questão. Afinal, os professores da UEMS são chamados a
uma tomada de posição. Trata-se de ser a favor ou contra o movimento dos alunos,
a greve está nas ruas, não é possível um meio-termo.
Eis aqui a minha primeira aproximação
de análise. Espero que o texto desperte reflexões e outras análises a favor ou
contra o movimento. O debate está aberto. Em primeiro lugar, entendo que a
análise de conjuntura não pode ficar restrita aos acontecimentos relativos
exclusivamente à cidade de Campo Grande, isto é, quais os impactos dos
resultados da última eleição municipal. Para mim, a greve estudantil, colocada
na categoria de movimento social, possui raízes bem mais profundas.
É certo que estamos num cantinho do
mundo, o Mato Grosso do Sul, mas com a globalização e o apoio das novas
tecnologias estamos cada vez mais conectados com o mundo. Os ventos da mudança
que sopram em terras distantes também repercutem aqui. Coloco de imediato a
seguinte constatação: a rebelião popular voltou à ordem do dia. Após um longo
período de hibernação, ela voltou. Seja muito bem-vinda. É preciso entender,
participar e politizar as novas formas de movimento social que brotam como
cogumelos depois de uma noite de chuva. Entendermos os movimentos participando
deles e, com essa participação, os compreendemos melhor. Não é uma tarefa fácil,
como já disse. Em momentos de encruzilhada teórica, da escolha de caminhos a
seguir, recorro ao velho barbudo, amado por uns e odiado por outros, Karl Marx.
O que ele diria em relação à possibilidade de análise de um fenômeno social no
qual a pessoa é espectador e ator, tudo, no calor dos acontecimentos, saindo e
entrando de reuniões e assembleias? Na introdução do livro Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel, Marx diz que “a análise crítica não é paixão
da cabeça, mas a cabeça da paixão”. Portanto, não se trata de descartar a
paixão, acredito, aliás, que a paixão é necessária em todas as ações humanas, a
questão é subordiná-la à cabeça, a análise racional.
O pano de fundo objetivo das rebeliões
ao redor do mundo é o agravamento da crise social e a ausência de alternativas
políticas organizadas. Segundo, István Mészáros, o capitalismo vive uma crise
estrutural e entrou em sua fase final de decadência, ou seja, não conheceremos
mais longos períodos de crescimento econômico. Em 2008, o mundo conheceu o
significado da crise, e três anos depois, em 2011, ocorreram diversos movimentos
sociais de protesto com reivindicações peculiares em cada região, mas com formas
de luta semelhantes. Aos interessados no tema sugiro o livro Occupy:
movimentos de protesto que tomaram as ruas, lançado, no Brasil, em 2012, pela
Editora Boitempo, de São Paulo. No início de 2011, aconteceu a chamada Primavera
Árabe quando milhares de pessoas foram às ruas pelo fim das ditaduras em países
da África do Norte (Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen). O movimento assumiu o
caráter de revolução democrática. Também em 2011, as ruas das principais cidades
da Espanha foram tomadas pelo Movimento dos Indignados contra o desemprego, a
desigualdade social e a falta de perspectivas aos jovens. Em Portugal, o
movimento ficou conhecido como Geração à Rasca, e na Grécia, aconteceu à
ocupação da Praça Syntagma. Detalhe: todos esses movimentos foram promovidos e
coordenados por jovens, em sua maioria, entre 18 a 25 anos. Ainda em 2011, no
Chile, cerca de quatrocentos mil estudantes saiu às ruas reivindicar educação
pública e gratuita. O movimento colocou uma pá de cal no ideário de privatista
das políticas neoliberais, justamente no nascedouro da primeira experiência
neoliberal do mundo. O mais importante movimento ocorreu no coração do
capitalismo contemporâneo com o “Occupy Wall Street” em New York. Estima-se que
aproximadamente quinze mil pessoas participaram da ocupação com um público bem
diversificado composto por hippies, punks anarquistas, desempregados, veteranos
de guerra, estudantes, pobres, sindicalistas, juventude desencantada etc.
As formas de organização e ação desses
movimentos sociais são semelhantes às estratégias utilizadas pelos estudantes da
UEMS, Unidade Universitária de Campo Grande, salvaguardadas as proporções
quantitativas e o alcance das exigências reivindicatórias do nosso cantinho do
mundo. Os movimentos recusam as articulações políticas do espaço institucional
tradicional. O movimento grevista dos alunos não possui nenhuma vinculação
político partidário e nem sindical. A crítica aos partidos políticos e aos
sindicatos como meros interlocutores do capital estão presentes no livro
Atualidade histórica da ofensiva socialista: uma alternativa radical ao
sistema parlamentar, de István Mészáros, lançado, no Brasil, em 2010, pela
Editora Boitempo, de São Paulo. Os movimentos são pacíficos e recusam a adoção
de táticas violentas e ilegais, evitando, assim, a criminalização. Vi alunos da
UEMS distribuindo lindos crisântemos. Os movimentos não possuem uma liderança
única e centralizadora. Quanta diferença da minha época de movimento estudantil
quando as lideranças faziam acordos na calada da noite. E, por fim, os
movimentos sociais utilizam as redes sociais, Facebook e Twiter, como forma de
comunicação e organização. Todas as informações, entrevistas, vídeos de
passeatas e manifestações estão disponíveis no Facebook Movimento Acadêmico UEMS
– CG.
É necessário apontar também uma grande
diferença entre os diversos movimentos sociais citados e o movimento grevista da
UEMS. Os primeiros foram compostos por milhares, milhões de pessoas; nós, ainda,
somos tímidas centenas. Convido os leitores a conhecerem e, quiçá, participarem
do movimento. Dirijo-me, em especial, aos camaradas (colaboradores do extinto
O Marginal) que sempre estiveram a favor dos movimentos sociais e das
lutas dos trabalhadores para que venham somar conosco. Aos demais colegas de
trabalho, que possuem outra maneira de analisar a questão - sempre há os que
pensam diferentes -, deixo todo o meu carinho e respeito. Evoco a tolerância de
Voltaire, o principal dentre os santos e mártires do calendário filosófico, a
fim de acalmar a minha impaciência. Por favor, por gentileza, moçada, não
maculem a história. Ouvi uma pessoa falar numa assembleia que a greve nunca
trouxe nada de bom. Certamente não trouxe nada de bom para os capitalistas, mas
os direitos trabalhistas foram conquistados com as lutas dos trabalhadores.
Durante a Primeira Revolução Industrial, as jornadas de trabalho chegavam a 12,
14, 16 horas diárias; pensem nas greves do ABC paulista no final dos anos 70 e a
sua contribuição ao processo de redemocratização do país. Os livros estão
disponíveis, não vou me alongar em exemplos.
Acredito, sinceramente, que em termos
de organização e mobilização os professores têm muito que aprender com os
alunos. Não é um despropósito pedir para que cessem as suas piruetas retóricas,
ou análises de conjuntura restritivas, na tentativa de defender o indefensável.
Se a causa é justa, democrática e pacífica merece o nosso apoio. Abram seus
olhos para o que está acontecendo no mundo e na Unidade de Campo Grande. Deixe o
clamor das ruas entrarem pelos ouvidos, passarem pelo coração e chegarem à
cabeça, a cabeça da paixão.
Unidade Universitária de Campo Grande
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